Sonhei que a gente se amava, mas não se aguentava. Que a gente tentava se entender, mas só conseguia se esquecer. Que por mais que se esforçasse, o amor não conseguia aparecer. Que por mais que tentasse, o amor insistia em tentar morrer. Era um amor suicida, sabe? Um amor que a gente não podia se descuidar, não podia deixá-lo sozinho, um amor que sempre errava o caminho, que não podia dividir o ninho.
Sonhei que a gente se amava e não se falava. Que a gente crescia separado, mas quando estava junto dava tudo errado. Que quanto mais longe a gente se afastava, mais a gente gritava, mais o nosso amor esfriava, o coração calava, a intenção errava. Era uma plantação de erros, sabe? Era tentar enxugar gelo. Era procurar no ovo um pelo. Um amor infantil, pouco gentil, um amor desses que a gente prende no canil.
Sonhei que a gente se amava, mas que se odiava. Que a gente não conseguia se olhar, que a gente mal conseguia caminhar, que o tempo ia passando e a gente não conseguia sair do lugar. Era um amor de contramão, um amor que carregava tatuado o não, um amor que só jogava a gente no chão. Um amor de boleia de caminhão, sabe? Daqueles que muda a paisagem a cada fronteira. Amor sem eira nem beira. Um amor de estrada. De noite gelada, de porta fechada, de história mal contada.
Sonhei que a gente se amava, mas não sabia como se amar. Ou sabia e não queria. Ou sabia e fingia que não via. Ou sabia e se iludia. Ou sabia e estragava tudo dia após dia. Sonhei com a gente. Sonhei com o amor. Sonhei que a gente se comportava como predador. Era um sonho que podia se bonito, mas que me deixou meio aflito, sem saber se deveria ter sido escrito, que não se entendia o que era dito, de futuro meio maldito.
Acordei engasgado. Entendi que era só um sonho e fiquei aliviado. Virei pro lado, fechei os olhos e voltei a dormir. Mas o sonho não voltou. Passou. Cessou. O amor sumiu, a gente sumiu, o sonho sumiu. E a noite, sem culpa, prosseguiu.
(Autor: Junior De Paula)
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